terça-feira, 24 de novembro de 2009

STRAMM: ESTRANHO...






Imagem: Edvard Munch)






Acabo de conhecer o poeta alemão August Stramm(1874-1915), através do incansável e apaixonado Augusto de Campos, que também acaba de traduzir Byron. Augusto tem fascínio por poetas extremos, que arrastam correntes, uivam; poetas que cospem nas convenções. Amo Augusto de Campos. Amo poetas que arrastam correntes, uivam, estilhaçam tempo/espaço, num estranho bailado com as palavras, cospem vidro na cara dos vendidos.
Augusto comenta nesse livro - coletânea sob o título genial POEMAS ESTALACTITES -
que a radicalidade/aspereza da poesia de Stramm, de certa forma, o relegou. Mas posteriormente
- é necessário que se morra... - o poeta alemão, segundo críticos respeitáveis, foi comparado a Kandinsky e a Schoenberg: tal como eles, quanto à pintura e à música, Stramm foi precursor da abstração na poesia.
Haroldo de Campos já havia percebido a modernidade de August Stramm, transcriando alguns poemas seus.
Fiquei desconCertada com a sonda, a britadeira dos versos desse cara; senti o meu rosto sem pele. Vento gelado, neve pontiaguda. Aí vão alguns poemas dele, que foi morto no campo de batalha russo. Poemas sangrando de amor e de guerra...

PASSAR

A casa faísca nas estrelas
Meu passo para e esfria.
Em teu seio meu cérebro dorme.
Dúvidas me devoram!
Pleno
Sombra teu busto na janela
A espreita me cala
Estrelas roçam ferro em brasa
Meu coração
Carboniza!
Em tua janela
Gela
Cinza de brisa
Os pés arrastam um peso vazio!

DESESPERADO

No alto ressoa um seixo agudo
A noite verte vidro
O tempo estaca
Eu
Cascalho.
Tu
Te
Vidras!

ALVORADA

A noite
Geme
às seivas sonolentas
Beijos
O ferro ringe opaco.
O ódio se estira
E
Arrasta o sonho entre os sulcos.
Rir pesa.
O bosque lanceia as sombras.
No olho choram
Estrelas
E se afogam.

SENTINELA

A cruz da torre assusta uma estrela
O cavalo arfa fumaça
O ferro ringe sonolento
Névoas afogam
Chuvas
Congelam calafrios
Afagam
Sussurram
Você!

domingo, 22 de novembro de 2009

CÂNON



















ÁRVORE
E ORE
P
E
Ç
A
AR
ORE
PEÇA
AR
AR
A
R
(do livro PELE & OSSO)

domingo, 15 de novembro de 2009

PONTO DE ORVALHO













xamãs se iniciam
com o musgo verde
molhado
no primeiro orvalho
da manhã

não há veneno que possa
contra uma gota de orvalho
recolhida de uma folha
da Árvore da Vida

é no Ovário
das Noites Secretas
quente
úmido
a céu aberto
que transpira
o Spirituals do Orvalho...


sábado, 14 de novembro de 2009

NASCIMENTO DE VÊNUS:RILKE/AUGUSTO DE CAMPOS







imagem:
Botticelli



Esta manhã, depois que a noite inquieta
esmoreceu entre urros, sustos, surtos _
o mar ainda uma vez se abriu e uivou.
E quando o grito aos poucos foi cessando
e do alto o dia pálido emergente
caiu no vórtice dos peixes mudos_
o mar pariu.

Ao sol reluzem os pelos de espuma
do amplo ventre da onda, em cuja borda
surge a mulher, alva, trêmula e úmida.
E como a folha nova que estremece,
se estira e rompe aos poucos a clausura,
ela vai desvelando o corpo à brisa
e ao vento intacto da manhã.

Como luas erguem-se os joelhos claros,
réstias de nuvens soltam-se das coxas,
das pernas caem pequeninas sombras,
os pés se movem bêbados de luz,
vibram as juntas como gorgolhantes
gargantas.

na taça da bacia jaz o corpo,
como um fruto na mão de uma criança,
o estreito cálice do umbigo encerra
tudo o que é escuro nessa clara vida.
Em baixo alteiam-se as pequenas ondas
que escorrem, incessantes, pelas ancas,
onde, de quando em quando, a espuma chove.
Porém, exposto, sem sombras, emerge,
como um maço de bétulas de abril,
quente, vazio e descoberto, o sexo.

A balança dos ombros paira, ágil,
em equilíbrio sobre o corpo ereto
que irrompe da bacia como fonte
vacilante entre os longos braços fluindo
veloz pela cascata dos cabelos.

Então bem lentamente vem o rosto:
da sombra estreita da reclinação
para a clara altitude horizontal.
Após o qual fecha-se, abrupto, o queixo.

Eis que o pescoço surge como um fluxo
de luz, ou talo, de onde a seiva sobe,
e se estiram o s braços como o colo
de um cisne quando busca a ribanceira.

Então, da obscura aurora desse corpo,
ar da manhã, vem o primeiro alento.
No fio mais tênue da árvore das veias
há como que um bulício e o sangue flui
a sussurrar nas fundas galerias,
e essa brisa se expande: agora cresce
com todo o hausto sobre os peitos novos
que se intumescem de ar e a impulsionam, _
e como velas côncavas de vento
levam a jovem para a praia.

Assim aportou a deusa.

Atrás dela, pisando a terra nova,
lépida, ergueram-se toda a manhã
flores e caules, quentes, perturbados,
como num beijo. E ela foi e correu.

Porém, ao meio dia, na hora mais intensa,
o mar se abriu de novo e arremessou
no mesmo ponto o corpo de um delfim.
Morto, roxo e oco.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

Este poema-transe de Rilke me arrepia, no transe-cavalo de Augusto; porque Augusto incorpora mesmo, baixa o santo. Um transe de cinema transgressivo, me lembra Glauber: arrancando a deusa do etéreo, trazendo a mulher, em sangue, carne e osso, e o mar uivando e tudo é surto, vertigem, a música vibrando aí, uma música terrívelmente estranha, única.

Ah, agora eu já posso ver de novo e ouvir, sentir no plexo solar e em todos os meridianos o fardo de ter vindo ao mundo como matéria perecível, mar se abrindo, o corpo do delfim. É sem tamanho esse poema, Botticelli não alcança...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

UM TEMPO ESGOTADO É BOMBA-RELÓGIO...















Fantasmas...
Há momentos em que não é recomendável atravessar os espelhos. Do outro lado pairam os fantasmas. E aqui, deste lado, o real, essa loucura...
Olho em volta e percebo quantas coisinhas carregamos, além de culpas, pecados...Cruzes...Coisinhas miúdas como clips, lápis, canetas, cadernetas, maquiagem, comprimidos, remedinhos em gota(falo de aspirina, própolis, rinosoro...não tenho obsessão por farmácia, ainda bem...rs), chaves, patuás, carteira, documentos, cartões, cremes, lixas, bijouterias, sapatos, chinelos, roupas disso/roupas daquilo, temperos, tralha de cozinha...caixas guardadas...O que guardam essas caixas, afinal? E todos aqueles aluguéis/stress diários, corre-corre faz café, toma banho, escolhe a roupa, observa se chove-não chove, leva sombrinha, blusa de frio, ajeita cabelo, um batom, um lápis, úúúú!! A turba tá lá fora...E tudo pode se apagar a qualquer instante...você vê? Daí sai, anda, pega ônibus, trólebus, anda, trabalha, almoça, trabalha, sai, chega...Sim, tem a música, os livros, os amigos, a família, os encontros, os papos, uma ou outra borboleta pelo caminho...pássaros pela manhã, uma ou outra flor, os imprevistos...Ontem quase me estatelo dentro do ônibus...eu ia com as mãos ocupadas(sabe, mochila, pasta, bolsa, sombrinha, livro...) passei pela catraca e...tchibum, voei!
Uma brecada legal, daquelas bem articuladas...não cheguei a cair no duro pq me apoiei numa cadeira do ônibus(ou, sei lá, fui jogada ali...) e me custou uma contusão nas costas...concussão ou qualquer coisa parecida...merda...
Hoje amanheci toda dolorida, trabalhei queixosa, não fui ao show da Miriam Maria no SESC Ipiranga - imagina, sair de S Mateus às sete da noite, pegar um bus até o Carrão na hora do rush, chegar no Ipiranga, sabe-se lá a que horas, procurar o Sesc, caminhar com aquela pasta, bolsa,
etc.etc...ah, e a maldita dor nas costas. Desisti! Tô aqui, com mil coisas pra fazer(cozinhar, por exemplo...), escrevendo, escrevendo, escrevendo...E pensando: porque tanta tranqueira
acumulada nos armários, nas gavetas, na cabeça? E essas visões abruptas, esses fantasmas rodopiando dentro do peito? Porque é que um dia custa tanto? E essas noites de estrelas perdidas lá atrás, estrelas que ninguém viu nem verá...E esses livros que leio, leio...e esses versos que faço, as canções...e o mundo inteiro ainda por conhecer, todos esses lugares além que não verei...O mundo acabando e eu nem sei se volto quando saio de casa; e o tempo cada vez mais veloz...
Coisa mais estranha ser passageiro desse tempo esgotado, essa bomba-relógio...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

FLYER DO PROFISSÃO DE FEBRE


criação: Fabio Giorgio

PROFISSÃO DE FEBRE!!!


















(Capa de Rosa fervida em mel, de Miriam Maria, título
retirado de um poema de Leminski, musicado por Zeca Baleiro e gravado por ela)

Fiz um belo show ontem no Sesc Consolação, num espaço gostoso, a Sala de Leitura. Tranquilo, compacto, o instrumental tinindo: Ronaldo Gama(baixo acústico); Tonho Penhasco(guitarra) Élber(cuíca, perfumaria); Renato Gama, timbre poderoso, cantando comigo Filho de Santa Maria, que fiz virar baião; momentos de alta voltagem; parcerias com Paulo, escolhi a dedo. Grandes amigos presentes, os mais chegados. Pessoas que eu não conhecia também estavam´por lá e tudo correu num clima super agradável. Consegui incorporar o meu lado contadora de história, me paramentei e mandei ver: foi uma história infantil(imagine...) que escrevi, inspirada na impressão que Paulo Leminski me causou à primeira vista, quando Itamar Assumpção o levou à minha casa. Impressionante como Leminski transpirava essa persona, o garoto encantado, assombrado com as coisas, como se visse tudo pela primeira vez. Foi o grande poeta argentino Enrique Molina(1910-1996) quem disse:...a infância mantém sua inocência primordial para passar para o outro lado do espelho...seu universo é ainda fluído e incandescente como o universo da poesia. Essa sua atitude de assombro permanente diante de tudo quanto a rodeia é a mesma atitude da poesia em busca de uma resposta sobre a abismática natureza do ser..."
Molina parece estar falando de Leminski. Um dia transcrevo a história aqui no Spirituals.
Enfim, foi uma delícia contar essa história para os adultos. Havia uma criança no local, a Rafaela.
que curtiu muito toda a encenação. Os adultos, como eu já esperava, ficaram meio constrangidos no início(a tendência é ser mais contido, racional, distanciado...); mas acabaram se envolvendo aos poucos; Essa história foi publicada na Folhinha da FSP em 84(uau!) e veio acompanhada de poemas de crianças de algumas escolas. Escolhi dois desses poemas para serem lidos por alguns amigos. Ademir Assunção(curador tb deste projeto, Que viva Leminski!), ao ler o poema destinado a ele, ficou surpreso(o poema era de um menino que contava a história de Kid Estrelar, um herói astronauta.) Ademir disse que sempre quis ser astronauta, desde garoto. Miriam(Orquídeas), que leu um poema sobre uma bailarina,
também ficou assustada dizendo que seu sonho quando criança era ser bailarina...! Comovente,
maluco isso. Forças, conexões misteriosas...ou será que todo menino sempre quis ser astronauta e toda menina queria ser bailarina?..
Enfim, foi tão bom. Recebi flores(poxa, não recebia flores há um bom tempo) de Celinha Nascimento, tão querida, Celinha com quem fiz um curso delicioso de literatura(Nas malhas da leitura); ela me trouxe rosas vermelhas. E olha só: em seguida ganhei um cd de Miriam Maria(aí, ex-orquídea, banda só de mulheres, de Itamar Assumpção), seu trabalho solo, sob o título ROSA FERVIDA EM MEL, onde ela aparece com o rosto envolto em rosas vermelhas(...). Capa lindíssima.
E lá estava na parede da sala do Sesc Consolação, a capa do meu Olodango, eu com a rosa vermelha nos cabelos...ao lado do cd dela, de Miriam, rosas vermelhas. Rosas, o seu significado, leio agora no cd de Miriam: paraíso de Dante, coração, amor, finalidade, perfeição; símbolo do impossível. Símbolo da beleza e do feminino; sei que os rosários originais eram feitos de pétalas de rosa...QUE VIVA LEMINSKI! E QUE VIVA O MISTÉRIO!
Ganhei ainda uma revista de Robinson Borba, a + SOMA, com uma repórtagem intrigante sobre Itamar Assumpção, fotos belíssimas e uma delas da banda Isca, eu ali no meio, tão jovem, tão feliz de estar com eles...Itamar, Gigante Brazil...
As pessoas não devem partir assim, sem mais nem menos...